Recebi o email abaixo e achei interessante publica-lo:

Niterói, 11 de dezembro de 2010.
Senhor Professor Thomas Skidmore:
Tive o prazer de conhecê-lo em novembro de 1973 quando promovi e organizei como Diretor do Instituto de Letras da Universidade Federal Fluminense e do Centro de Pesquisas da Fundação Casa de Rui Barbosa o Programa Especial UFF-FCRB, que o teve entre os nossos convidados para participar em Niterói do Ciclo de Estudos Fluminenses, comemorativo do quarto centenário da cidade de que foi fundador principal o índio Araribóia, cacique da tribo dos Temiminós, aliada dos colonizadores portugueses.  Tivemos breves contatos, na sessão de abertura do Programa na Reitoria da UFF, em sessões do Ciclo, na residência da Professora Ismênia de Lima Martins e na sessão de encerramento nos salões do prédio histórico da FCRB, antiga residência de Rui Barbosa.  Belas fotografias do meu arquivo particular fixaram alguns desses momentos, e vou exibi-las na exposição que está sendo montada para a festa de comemoração dos 50 anos de existência da UFF, nos próximos dias.
Foi a partir de então que passei a acompanhar a sua atuação de brasilianista insigne, com assinalados serviços prestados à divulgação da nossa história nos Estados Unidos e em outros países.
Sou um profissional da área das ciências da linguagem, dedicado de modo especial a estudos de Filologia, Crítica Textual / Ecdótica e a estudos literários, já em idade bem avançada (um octogenário) e com 65 anos de exercício do magistério e de atividades de pesquisa e de editoração.  Estou no momento ultimando os originais de cinco livros em que reúno artigos dispersos e inéditos, no desejo de publicá-los em julho do próximo ano, na data em que completarei 85 anos de idade.
Na minha biblioteca particular de cerca de 15.000 livros e revistas, os pesquisadores que a ela recorrem podem perceber pela quantidade de livros que cinco setores de estudos e pesquisas foram os preferenciais ao longo dos anos: crítica textual, linguística portuguesa, estudos literários, história do Brasil e de Portugal, história da República.  Um dos assuntos por que sempre me interessei foram as manifestações do autoritarismo nas diversas fases da vida republicana.  Vivi intensamente os problemas do giverno militar de 1964, e como dirigente do Instituto de Letras da UFF de 1970 a 1974 (no governo do Presidente Medici) e em 1975 integrante da turma de estagiários da Escola Superior de Guerra como representante da minha Universidade (no governo Geisel) tive oportunidade de conhecer de perto e mesmo de ter frequentes contatos com chefes militares das três armas, o que me permitiu captar as ideias fixas de vários deles e as razões das tantas desastradas ações sob o seu comando.  Como professor da disciplina Estudo de Problemas Brasileiros na UFF, passei a ler os livros que se publicaram com as interpretações mais diversas dos fatos da chamada Revolução de 1964, inclusive a obra mais extensa e documentada sobre a matéria, em quatro volumes, de autoria do jornalista Elio Gaspari. Estou me despedindo desses preciosos livros, pois me desfarei da maior parte da minha biblioteca em meados do próximo ano.
Quero a esta altura dizer ao ilustre professor que me senti tentado a enviar-lhe esta mensagem depois de ler em O Globo o artigo intitulado “O Brasil na beira?”, que escreveu em parceria com o seu colega James N. Green, também Professor Emérito da Brown University.  Sinto-me no dever de contestar uma afirmação que aí fazem,    quando dizem que o Presidente Lula conta com o apoio de 83% da população brasileira e que menos de 5% dos brasileiros consideram ruim a sua atuação no governo.
Gostaria de fazer chegar ao conhecimento dos articulistas o que escrevi com base em dados das últimas eleições divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral, segundo os quais é falsa essa afirmação de tão esmagador apoio a um Presidente que, pelo visto na imprensa e na Internet e pelo que se ouve nas ruas, é alvo constante de críticas contundentes e até de muitos deboches (com os quais não concordo) por parte de um número avultado de cidadãos, principalmente da classe média.
Veja-se este dado insofismável: a candidata do Presidente Lula à Presidência da República, Dilma Rousseff, apesar de todo o seu empenho, só  conseguiu 56% dos votos válidos, ao passo que  o desastrado candidato da inexorável oposição José Serra obteve 43%.  Foi de mais de 28% o total dos que deixaram de votar ou anularam o seu voto, numa eleição muito disputado, em que os governistas tudo fizeram de legal e ilegal para que tivessem o maior apoio na votação.
Como falar então em 83% de apoio dos brasileiros ao Presidente Lula?  Se isto fosse verdade, considerando que a nossa população atual é de 190 milhões, que 30 milhões são pessoas de menor idade e mais  os  analfabetos ou semiletrados alheios ao processo eleitoral, o cálculo de 83% sobre 160 milhões daria um total de mais de 130 milhões de apoio ao Presidente.  Por outro lado, repito, não resiste a uma análise serena a afirmação dos  articulistas de que apenas 5% consideram mau o governo, ou seja, cerca de 8 milhões de pessoas.  Todos sabem que em José Serra votaram os eleitores que veem com muito maus olhos o Presidente Lula e seu governo – 43 milhões de eleitores.  É evidente, pois, a falsidade do apoio de 83% (mais de 130 milhões) ao Presidente – lembre-se de novo.
Veja-se no quadro abaixo o resultado da eleição no segundo turno, proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral:
Eleitorado – 135.804.433 Total de votantes – 106.606.214 (78,50%)

Votos válidos – 99.463.917 (93,30%)

Votos brancos – 2.452.597 (2,30%)

Votos nulos – 4.689.428 (4,40%)

Abstenção – 29.197.152 (21,50%)

Votos obtidos pelos candidatos

Dilma Rousseff – 55.752.529 (56,05%)

10 Partidos: PT – PRB / PDT / PMDB

/ PTN / PSC / PR / PTC / PSB / PC                                             do B

José Serra – 43.711.388 (43,95%)

6 Partidos: PSDB – PTB / PPS / DEM

/ PMN / PT do B

Muitas outras observações poderia fazer sobre o artigo, mas só as faria se fosse do interesse do ilustre professor.  Sou das pessoas que não aceitam o que faz hoje o pessoal da esquerda festiva, ou Partido Comunista de Ipanema, segundo a jocosa classificação de Nelson Rodrigues: a atribuição de toda a culpa do que aconteceu de 1964 em diante à triste atuação dos militares no exercício do poder. O autoritarismo vem de longe, da Primeira República, acentuou-se grandemente durante o Estado Novo, a meu ver o seu pior período (cujos efeitos eu senti na minha adolescência e mocidade), reafirmou-se bem forte nos governos de Jânio Quadros e João Goulart, foi muito mais longe durante a ditadura militar.  E hoje, estamos por acaso num regime verdadeiramente democrático?  Não o creio, por vários motivos.  Não conseguimos passar da democracia apregoada para a democracia real, como queria o filósofo Jacques Maritain.  Não considero democracia autêntica um regime em que a cúpula do Poder Executivo, a do Poder Legislativo e a do Poder Judiciário fazem o que bem entendem, sem nenhuma possibilidade de controle por parte dos cidadãos.  Agora mesmo, antes da posse da Presidente eleita, em meio à indecorosa disputa de cargos públicos, e sem que nada se fale a respeito das necessárias reformas administrativas e políticas de que o país necessita com urgência, O Globo publica com destaque na primeira página que os políticos vão alcançar um aumento salarial considerável, embora  a inflação continue a preocupar os mais sensatos e os assalariados e a classe média estejam submetidos ao arrocho salarial.

Muito cordialmente,

o leitor e admirador
Maximiano de Carvalho e Silva.

Professor Emérito da UFF.

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