Ué, pra isto tem dinheiro?  Pro resto, não?
Lord Acton deu um conselho ao filho, que pensava entrar para a vida pública: “Filho, lembre que todo poder corrompe, mas o poder absoluto corrompe de forma absoluta.”
Muitas vezes me questionam sobre não ser novo o fato de roubarem os que estão no poder.  É verdade, não há nada de novo nisto.  Mas o que me incomoda é a distância entre a pregação do candidato e as ações dos que conseguiram eleger-se.  A falta de vergonha, de compostura, de respeito para com os brasileiros é tão descarada que revolta a todos nós.  Não há doutrina que desculpe descalabro tão cínico, esta inversão de valores absurda, a ponto de negar o devido valor a quem trabalha e escraviza o ignorante pela esmola.  Pensei antes que houvesse algum altruísmo na distribuição de renda.  Não.  Não há.  Há apenas a exploração desalmada de uma sociedade frouxa, jamais temperada por dificuldades reais, cujo maior é a ignorância.  Panis et circenses, só isto.
Fico imaginando como pode haver gente tão desprovida de valores essenciais à vida, tão insensível às consequências de seus atos, a ponto de proceder como as vestais da candidatura a quem o poder retirou a máscara e revelou a verdadeira personalidade: não passam todos de cáftens e cafetinas, insensíveis ao mal que levará anos a fio para ser ao menos aliviado.
John Milton dizia que um cientista deveria ser, antes de tudo, um homem de bem – para que a ciência não fosse usada para o mal.  Que dizer então da política?  Que dizer então da arte de governar?  O problema está no objetivo que se percebe.  Pode ser que, em algum momento, essa cambada tenha tido um ideal, tenha lutado por ele.  Em algum momento.  Duvido muito, mas, quem sabe?  Mas não hoje, passados os arroubos ingênuos da idade dos ideais.  Não há pureza alguma de ideais ou de postura.  Pureza?  Muito forte.  É,‘tá legal, vamos falar de algo mais consistente com a escrotidão (palavra feia, eu sei, mas não tanto quanto o que nós vemos!). 
Em vez de pureza de ideais, digamos, coerência com os ideais.  Mesmo na visão mais benevolente, o que se vê nada tem a ver com ideais.  No máximo tem a ver com método: Usar o centralismo do Estado social para locupletar-se, usar o dinheiro suado, mesmo do trabalhador mais humilde, extorquido pelos impostos mais calhordas do mundo e sustentado por um aparato elefantino e burocrático para um objetivo muito, muito mais prosaico – enriquecer-se.  Enriquecer, porque esse pessoal acha que a vida lhes deve tanto pelo simples fato de estarem no poder.  E não importa o mal que causem, o exemplo torpe que deixem como legado do arremedo de democracia que dizem estar realizando.  Democracia?  Ora, nem sequer sabem o significado da palavra!
Se voces acham que estamos pagando caro pelos desmandos dos feudatários do governo, ah, não viram nada.  O que acontece agora é só – o clichê foi inevitável – foi só a ponta do iceberg.  Será necessário um esfprço imenso para mudar a mentalidade frouxa, negligente, aproveitadora, calhorda, acomodada e ignorância que essa turma deixa como herança.
O problema é se teremos tempo para corrigir.  Porque o tempo em que ficávamos longe de tudo acabou.  Agora, um território deste tamanho (5º país do mundo, 47% da América do Sul, 10% da água potável do mundo) atrai cobiças das mais variadas.  Não, não estou falando das teorias das conspiração, de pretensos agentes da Al Qaeda em Foz ou dos missionários americanos nas terras indígenas.  Não falo de suposições, mas de convicções.
Estou falando de brasilidade, de legado, de herança, de um conjunto de coisas e valores que fazem um país ser verdadeiramente um país.  Falo de vergonha, de retidão, de valores morais, de memória histórica, de vontade de ser brasileiro.  É disto que estou falando, coisas que os cáftens no poder, que os burocratas interessados no status quo não entendem.
Sou brasileiro, sim.  Tenho orgulho disto porque conheço a memória histórica, zelo por ela e procuro transmitir alguma coisa às novas gerações.  Sou brasileiro, sim, e não me julgo inferior a um escandinavo nem superior a um africano.  E sou carioca, na verdade um animal em extinção, como a famosa tartaruga das Galápagos.  Em extinção, sim, porque minha cidade, meu Estado foram vitimados por alguns políticos calhordas, um processo muito semelhante ao que vejo acontecer no Brasil.
Sou brasileiro, sim.  Do tipo que o poeta Guilherme de Almeida colocou na Canção do Expedicionário, que pouca gente hoje terá ouvido:
“Por mais terras que eu percorra,
não permita Deus que eu morra
sem qu’eu volte para lá!”
Sim, sou brasileiro.  Tenho orgulho disto.  E, do fundo do coração, maldigo a todos que infelicitam, abastardam e humilham a terra em que nasceram em nome de uma teoria falida, moribunda e hipócrita.  Malditos sejam pelo que fazem e pela devastação moral e material que será sua herança.  Malditos ignorantes, cheios de más intenções, que destroem o significado do que é ser um país, que não se dão ao respeito, inflados em seu ego boçal por um narcisismo absurdo e ridículo.
Só espero não estar vivo se, algum dia, a Bandeira for baixada do mastro porque o Brasil tenha deixado de existir por falência moral, não mais digno do respeito das outras nações.
Não me desculpo pelo desabafo nem espero que concordem comigo.  Pensem o que quiserem, porque respeito a diversidade de opinião.  Só não respeito que endossem a falta de caráter e a inversão de valores pelo simples expediente que favorece sua doutrina particular.  O ladrão é um ladrão.  O boçal é um boçal.  Um calhorda é um calhorda.  Um cargo eletivo não elimina o adjetivo nem a qualificação.
Um brasileiro não é nem um nem outro.
João Guilherme
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